
Ele é o homem de um milhão de livros. Na sua contagem é o que já passou pela Sala de Leitura Gilberto Freyre. O fundador do espaço, em Casa Forte, na Zona Norte, é o professor Rafael de Menezes. Tudo que chega é doado. E tudo que sai é de graça. A ideia é revelar a capacidade transformadora da leitura. Na sua carteira profissional constam 49 anos de sala de aula. Por quase cinco décadas, o educador ensinou sociologia nas principais universidades do estado. No fim de semana em que se comemora o Dia do Professor, o docente quer mais. “Gosto de desafios. Aposentei a aposentadoria. Lanço meu 21º livro em novembro”.
A “sala” é definida pelo professor como “um ponto de encontro entre os livros que chegam e os que partem”. Não é depósito. O espaço foi fundado em maio de 1981. Os alunos que visitavam a então casa do professor tomavam livros para ler e eram estimulados a trazer outros. A coisa cresceu tanto que o docente teve que deixar o local. “Os livros me expulsaram”, brincou. A casa vizinha à Sala de Leitura foi o local de nascimento de Gilberto Freyre. Os dois se tornaram amigos íntimos.
As obras que chegam ao local são doações de colegas, ex-alunos, ao todo mais de 25 mil, e até de gente que ele jamais viu. No dia em que conversou com o Diario, 250 títulos passaram a fazer parte do acervo da biblioteca. Hoje, a Sala de Leitura conta com 10 mil obras de 30 áreas do conhecimento, como psicologia, ciências, sociologia, comunicação social, política brasileira, história, literatura e economia. Entre as raridades está Minha formação, de Joaquim Nabuco. A obra está autografada.
Alguns dos exemplares guardados já têm endereço certo. Este ano, 10 mil títulos serão distribuídos aos leitores de Sertânia e Caruaru. As cidades de Iguaraci e Petrolina serão as próximas da lista. Um furgão conhecido como Clarão do saber é o meio usado para transportar os títulos. “O saber clareia, nos tira do escuro”. Quem se interessa por algum título pode levá-lo para casa. Mas com o compromisso de ler. Simples assim. O projeto ajudou na reconstrução da Biblioteca de Palmares, devastada pelas chuvas dos últimos anos. Garanhuns também recebeu livros.
A leitura é sua a grande paixão. Para o professor, quem ler não envelhece, não sente a solidão. O livro, arrisca o sociólogo, é um cego capaz de ver, um surdo que pode ouvir. Ele chega a passar até 10 horas diante dos livros. Muito não? Para ele, o suficiente. A gosto pela leitura é tanto que um dos lados da sua cama é reservado aos livros. Hoje, são dez ao todo. Literalmente, ele dorme entre os livros.
Tanta leitura e criatividade resultaram na criação de 20 obras. O que aprendi quero ensinar, seu 21º título, chega as lojas no próximo mês. Em 198 páginas, o professor discute a filosofia da educação. O livro é um passeio sobre a importância de valorizar a educação e ler em qualquer idade. O que aprendi quero ensinar demorou dois anos para ficar pronto. A obra poderá ser adquirida no dia do lançamento, mediante permuta por outro título. “A leitura não é um vício, uma paixão. É um hábito. Quem não lê não sabe, não ouve ou não vê. O livro é íntimo”, acrescentou.
Nascido em Monteiro, na Paraíba, Rafael de Menezes veio para o Recife aos 12 anos. Considera-se “paraibuco”, metade paraibano, metade pernambucano, e afirma ter no sangue o DNA da profissão. Seus avós eram professores, caminho seguido pelos seus oito irmãos. “Quero ser professor, sempre professor”.
